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Brasil: Uma crise política, econômica e social

O Brasil está em crise política. Por consequência e/ou causa, está também em crise econômica. Por consequência e/ou causa, passa também por graves crises sociais em que vemos um grande golpe ser seguido por diversas ações autoritárias, opressoras e elitistas sem conseguir, ainda, mudar muita coisa.

Em 2016, a presidenta Dilma Rousseff (PT), eleita em 2014, foi impedida de continuar seu mandato em um golpe que colocou na presidência o vice da chapa, Michel Temer (PMDB). Desde então, a situação do País só se agrava. Podemos listar uma série de decisões do governo, disfarçadas de democráticas e constitucionais, em busca da ideia positivista de progresso: congelamento dos investimentos em saúde e educação durante 20 anos; reformas previdenciárias e das leis trabalhistas – em detrimento das trabalhadoras e dos trabalhadores; cortes de verbas em todos os setores públicos, chegando a um ato que nos tolhe o direto de ir e vir, garantido constitucionalmente: o cancelamento da emissão de passaportes.

Esses atos, por si só, já seriam motivos para reconhecer o governo problemático que foi instalado. Houve ocupações nas escolas e universidades públicas, greves gerais e muitas manifestações. Para todas o governo tem fechado os olhos e tentado criminalizar. Mas, como se não fosse suficiente, em maio de 2017 foi divulgado um áudio em que Michel Temer e o senador Aécio Neves (PSDB) aparecem pagando e recebendo propinas de Joesley Batista, investigado pela Operação Lava-Jato, do Ministério Público Brasileiro. O próprio investigado entregou a gravação como parte de delação premiada [o investigado colabora com as investigações em troca de redução da pena recebida].

Neste momento, houve uma grande euforia política no Brasil. Acreditava-se que Temer renunciaria à presidência e que ambos seriam julgados e condenados, diante da prova. Mas para surpresa de todas e todos, Temer não renunciou e Aécio, que foi inicialmente afastado do senado, foi inocentado por “falta de provas” e reassumiu seu cargo político. No caso específico de Michel Temer, foi realizado um julgamento para a cassação da chapa que o elegeu como vice-presidente, já que o governo era de ambos. Mas, segundo o julgamento, o crime que gerou o impedimento de Dilma não alcançava Temer. No último dia 27 de junho a Procuradoria Geral da União denunciou Temer ao Ministério Público por corrupção.

Não é possível classificar ainda o que é mais assustador da situação política no Brasil. Mas certamente tem muito destaque nisso o que parece um complô entre os poderes executivo, legislativo e judiciário, todos se retroalimentando em seus atos de corrupção e de benefício próprio, deixando de lado bem comum da população brasileira. Há um favorecimento de pessoas das elites política e econômica do País que, ainda que condenadas, recebem penas brandas e reduzidas pelas delações, fazendo-nos questionar inclusive o trabalho do Ministério Público, que tem pesos e medidas diferentes no tratamento dos investigados.

Cúmplice disso é a mídia brasileira, em especial as Organizações Globo. Com o alcance e visibilidade que têm, em vez de cumprirem um papel social de informações críticas e que dessem à população brasileira elementos para questionar o governo, apenas reforça, pelo senso comum, uma aversão aos temas políticos, todos eles associados à corrupção. Isso acaba por afastar as pessoas de discussões essenciais para a tomada de posicionamentos que seriam capazes de transformar a realidade política do país.

O que percebemos é que a situação é grave e que não podemos ficar paradas e parados esperando que, como mágica, tudo se resolva. São novas configurações de fascismo e se instala uma ditadura disfarçada de democracia, porque o povo se mantém calado e quando grita, é ignorado. Com o apoio da mídia e dos poderes que deveriam ser regulamentadores, em vez de cúmplices, o que nos cabe é lutar para impedir que a situação se agrave ainda mais. Precisamos voltar a nos orgulhar de nós.

Gisa Carvalho. Brasileira. Jornalista. Membro da Cátedra Internacional José Saramago.
Publicado, 04/07/2017


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