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Poesia Atual e Política

A CJS colabora com o projeto de investigação "Poesia Atual e Política - Análise das relações contemporâneas entre produção cultural e contexto sociopolítico" (POEPOLIT), com financiamento do Ministério de Economia e Competitividade do Governo de Espanha (FFI2016-77584-P, 2016-2019).


Na equipa de investigação participam investigadoras/es de onze universidades e sete países:  Alethia Afonso (Universidad Iberoamericana, México), Kenia Aubry Ortegón (Universidad Autónoma de Campeche, México), Burghard Baltrusch (UVigo, investigador principal), Mônica Sant’Anna de Carvalho (UVigo), Arturo Casas (USC), Alba Cid (USC), Ana Chouciño (USC), Geneviève Fabry (Université catholique de Louvain), Maria Gislene Carvalho Fonseca (Universidade Federal de Minas Gerais), Joana Matos Frias (Universidade do Porto), Cornelia Gräbner (Lancaster University), Ilka Kressner (University at Albany, New York), Rosa Martelo (Universidade do Porto), Carlos Nogueira (UVigo), Gabriel Pérez Durán (UVigo), Iratxe Retolaza Gutiérrez (Euskal Herriko Unibertsitatea), Anne Shea (California College of the Arts), Iria Sobrino Freire (UdC),   Luca Salvi (Università degli Studi di Verona).


Resumo:


O projeto POEPOLIT pretende estudar de uma forma sistemática o caráter político de certas expressões poéticas atuais no Ocidente. A partir de análises não só textuais mas também de fenómenos intermediais, exploraremos questões como estas: se uma poesia esteticamente complexa tem menos probabilidades de exercer uma influência política do que uma poesia mais popular; se a poesia e os poetas deveriam ser mais amplamente reconhecidas/os como agentes portadores e potenciais conformadores de uma visão ou de epistemologia especial; qual é a sua influência sobre a sociedade e, em caso afirmativo, se a sociedade reconhece esta influência; ou quais seriam as consequências ou os riscos implícitos para uma poesia que se assume como apolítica ou separada da sociedade; como podem expandir-se os atuais horizontes do “político” através de novas linguagens poéticas e analíticas.


O objetivo teórico principal será o estado da efetividade e aplicabilidade da noção do político para a análise da poesia atual a partir do conjunto das propostas teóricas contemporâneas e das perspectivas que equiparam diretamente a poesia à política ou que as aproximam de forma gradual desde perspetivas e metodologias variadas. Outro objetivo teórico será a preparação de uma argumentação capaz de integrar as perspetivas da poesia atual não lírica, a sua relação com o espaço público e com o seu contexto sociopolítico. Neste sentido, realizar-se-ão análises de fenómenos poéticos da atualidade provenientes de âmbitos culturais diferentes e diversificados: principalmente hispanoamericanos, lusófonos e anglófonos, mas também dos âmbitos espanhol, francófono, galego, germanófono e vascão. A partir de metodologias derivadas da sociocrítica, do postmodernismo, do postcolonialismo, etc., dedicar-se-á especial atenção às práticas de mediação poética e à sua incidência política; às práticas verbais de intervenção política, particularmente nos repertórios de protesto dos movimentos sociais contemporâneos; à relação entre poesia e política a partir da noção e da figura autoral; e à relação entre poesia e política na cidade neoliberal.


Para além dos estudos de caso desde perspetivas multidisciplinares e comparadas – que contemplem quer a produção, quer a mediação ou a transferência e a receção de práticas poéticas com uma dimensão política –, realizar-se-á o registo e a classificação de práticas poéticas em circulação e de estudos metodológicos e teórico-críticos numa base de dados virtual que ambicionamos que se converta num marco de referência e ferramenta única para o estudo e a análise da relação entre poesia atual e política no contexto ocidental.


Linhas temáticas específicas do projeto que estão relacionadas com o âmbito lusófono:


Em colaboração e em coordenação com as atividades da I Cátedra Internacional José Saramago da Universidade de Vigo, inclui-se uma linha de estudo sobre o Nobel português José Saramago, cuja poesia foi uma das partes da sua obra mais desatendidas por parte da crítica. Trata-se de comparar as principais linhas do ideário político que este autor desenvolveu ao longo da sua vida – com uma grande perseverança até à sua morte – com a sua produção poética. Analisar-se-á principalmente o discurso político utópico da sua poesia, mas também de outras expressões poéticas que José Saramago realizou em diferentes géneros ou formatos (romance, teatro, diário e blogue). A partir de estudos prévios (Baltrusch 2014), comprovar-se-á a validade dos resultados de investigações anteriores sobre a obra poética de Saramago. Concretamente: a sua distância crítica em relação a um conceito tradicional da utopia e a tensão contínua entre pessimismo e otimismo numa obra que sempre vacilou entre uma conceção marxista da História e a sua transformação, ou em dialética negativa ou em semiótica da resistência. O principal objetivo consiste em demonstrar como a sua poesia já antecipa uma “utopia como acção contínua” que defendeu com grande insistência ao longo das últimas duas décadas da sua vida em diferentes foros e suportes, sempre no contexto da problemática relação entre julgamentos estéticos e políticos. Proceder-se-á também a uma leitura crítica da expressão poética da obra desde a sua própria defesa, manifestada em diferentes ocasiões, de que o político já não pode representar um modelo estético como categoria unificadora e de que o estético já não serve como modelo para o político. Finalmente, tentar-se-á argumentar, a partir da sua produção poética, que o discurso estético saramaguiano reclama uma reformulação politizada do sensus communis aestheticus kantiano a partir da ideia do “texto-tradução”, desenvolvida nos últimos anos de vida.


Desenvolver-se-á, também, uma linha de estudo específica sobre o poeta português Alexandre O’Neill, um dos fundadores do Grupo Surrealista de Lisboa (1947) e um dos poetas mais importantes da literatura portuguesa do século XX. Em toda sua obra poética se revela o discurso da mentalidade pequeno-burguesa do Portugal dos anos 50-60 e 70-80 do século XX, regido pelos valores de religião, trabalho, pátria e família impostos pelo ditador António de Oliveira Salazar e pelos seus seguidores. A poesia de Alexandre O’Neill caracteriza-se também pela rutura de espaços e experiências (estética, política, urbana, em relação ao binómio centro-periferia), e, com frequência, é precisamente através destes rompimentos que este autor transmite impressões de alcance histórico-cultural, como a passagem do tempo ou a crise contínua da experiência na modernidade (Walter Benjamin). Especialmente nas relações que estabelece entre o espaço público, político e estético, a obra de Alexandre O’Neill evidencia uma negociação entre a inteligibilidade da mensagem que ameaça destruir a forma artística e o estranhamento radical que ameaça destruir o significado político. Estas relações demonstram a atualidade de Alexandre O’Neill para uma indagação da situação da obra de arte no contexto de uma vida estetizada nas sociedades de entretenimento comercial na atualidade. A partir de estudos prévios de referência (por ex.: Nogueira 2011) tentaremos mostrar de que modo o eu dos poemas de Alexandre O’Neill procura respostas para problemas que aparecem sempre inter-relacionados, tanto de natureza social e política (Portugal, os portugueses, o fascismo) como literária (o neorrealismo, o surrealismo, a instituição literária, a obra-prima) e individual (a vertigem do eu perante as contingências que o rodeiam e perante a contingência que ele sente em si mesmo). Muito em particular, queremos entender e mostrar como Alexandre O’Neill se serve da sátira, da ironia e do humor (e de outras formas de expressão relacionadas, como a paródia ou o pastiche) com intenções políticas, e como interpreta e faz frente aos poderes totalitários (ideologia, política e religião). Também se pretende analisar a sua poesia à luz das dificuldades de apreensão do mundo e da arte como experiência e acontecimento (inclusive político), a partir das teorias de Alain Badiou e Jacques Rancière. Explorar-se-á uma noção de estética como experiência concreta na qual confluem o radicalismo estético da vanguarda e a estetização da existência comum. Algumas questões ligadas à autonomia e à heteronímia na poesia e na estética de Alexandre O’Neill relacionar-se-ão com a ambiguidade que resulta da aspiração política desta poesia que nunca se satisfaz por completo, o que também se relacionará com a tendência para a melancolia que a caracteriza.

Publicado, 03/03/2017


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