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Marcia Tiburi: ”O Poder das Utopias. Desmontando códigos distópicos com José Saramago”

Apontamentos da VII Conferência Internacional José Saramago da Universidade de Vigo “A Herança Filosófica e Sociopolítica de José Saramago”

 

Durante os dias 26-29 de Outubro da VII Conferência, fiz apontamentos soltos nos eventos aos que tinha a oportunidade de assistir e que aqui apresentarei de uma forma mais ou menos sistematizada. São notas e reflexões atravessadas por uma certa subjectividade. Não aspiram sempre a representar, de forma fiel, a ideia de quem proferiu a palestra.

 

1ª entrega, 26 de outubro de 2022. Conferência de abertura de Marcia Tiburi.

 

Marcia Tiburi falou d'”O Poder das Utopias”, para ajudar-nos “Desmontando códigos distópicos com José Saramago”. No Auditório do Centro de Visitantes do Parque Nacional das Illas Atlánticas de Galicia, assiste um extenso grupo de alunos de Língua Portuguesa do IES Barral de Ponteareas, que vieram com a sua professora, Teresa Sobral. No início, Marcia Tiburi adaptou o seu discurso a este grupo, para que se sentissem incorporados, e o seu fascínio tornou-se óbvio. Só depois, a filósofa adoptou um discurso mais académico, mas sem nunca perder a expressão firme de uma voz na que o pessoal é político. A audiência sentiu o impacto da voz de quem, junto com Jean Wyllys, teve de exilar-se do seu país por estar ameaçada de morte pelo bolsonarismo, por um sistema político que ainda se preza de ser democrático.

A filósofa e escritora advertiu que o “pensamento rigoroso é o maior inimigo do fascismo” e insistiu também no longo questionamento da democracia que nos apresenta a obra saramaguiana. É importante percebermos que a democracia como sistema nunca pode chegar a ser aquilo que não persegue o bem comum. Se deixar de perseguir o bem comum, a democracia tornar-se-á demagógica e oclocrática, ou seja, irá ao sabor da irracionalidade dos grandes grupos dominantes. Neste estado paradoxal no que se encontra a democracia na actualidade instalou-se uma decepção permanente, a ideia de a própria concepção de cidadania estar a ser cancelada.

Poderá consolar-nos, no entanto, a obra poético-política de Saramago, quem fez algo comparável ao impulso central do feminismo: lutar contra o domínio patriarcal-capitalista e, em última instância, contra a fascização do mundo. Trata-se de uma luta que também é a luta dos intelectuais, das pessoas da cultura, inimigos naturais desta tendência de destruição dos valores éticos e dos direitos humanos.

Observa-se hoje uma dura disputa sobre o conceito simbólico do ‘mundo’, sobre quem pode definir o que é, como e porquê. É uma disputa com uma longa história, e que se ilustra bem com o caso de Giordano Bruno, perseguido e assassinado pela Inquisição. Também hoje nos debatemos com a questão fundamental de encontrarmos, fixarmos e preservarmos uma língua de produção de mundo (cf. Nelson Goodman). Aqui, Saramago nos pode oferecer o exemplo de uma grande tentativa de construção e calibração do que consideramos ser o mundo. O trabalho do espírito, do que falava Hegel, é em Saramago o trabalho concreto da escrita, da constituição de um simbólico. Convém lembrar, no entanto, que em Saramago a utopia não é o equivalente de optimismo.

No Fórum Social Mundial de 2003 em Porto Alegre, Saramago advertira contra a idealização do conceito de utopia com o argumento "Porque amanhã ainda estaremos vivos". Marcia Tiburi destacou a importância que Saramago conferiu à ideia de uma "utopia negativa" (Adorno), com a arte como um não lugar, com a necessidade de procurarmos e encontrarmos utopias outras. Por exemplo, na ideia de que é do corpo da obra que a utopia se faz. A filósofa destacou, a partir do exemplo do Saramago escritor comunista, a importância de a própria teoria ter um impulso ético. No sentido de a literatura ter de afectar o mundo, que a democratização do mundo não é o design de uma utopia Disneylândia. Neste sentido, é preciso prestarmos sempre atenção à posição do horizonte, olhar para o que devemos fazer todos os dias, tão indignadas e indignados como o próprio Saramago.

Saramago pede um deslocamento das nossas posições e atitudes no quotidiano: O que é que eu posso fazer contra o capitalismo? É uma forma de "desutopia", porque a utopia só existe em teoria e há sempre a urgência de actuarmos. Marcia Tiburi compara esta posição saramaguiana com a ideia de Adorno de que a filosofia segue viva porque deixou passar o momento de se transformar em utopia. Refere também a Ernst Bloch quem, tal como Saramago, defendeu a necessidade de a utopia se tornar concreta. [Cf. "O que transformou o mundo é a necessidade e não a utopia", Saramago 2003.] Tal como na literatura há uma liberdade que aponta para liberdade de leitura, para fora do texto, Saramago, ao criticar a utopia, nos convida a reflexionar sobre a liberdade, e assim ela sobrevive.

Saramago impele-nos irmos além da superfície. E, concretamente, para além da superfície da democracia burguesa, para fazermos uma anatomia do capitalismo. [Trata-se de uma ideia fundamental que Marcia Tiburi constata em Saramago e que poderíamos estender à história da literatura: Eça de Queirós viu, no século XIX a necessidade de realizar uma "anatomia do carácter" da burguesia, seguindo o modelo da comédie humaine de Balzac. Para Saramago, este "carácter" seria ainda a "estátua", mas o que realmente lhe interessa, desde finais do século XX e até ao início do século XXI, é analisar a pedra da qual esta estátua foi lavrada. E o que foi constatando é que esta pedra é composta de capitalismo e patriarcado.]

A partir de Saramago, Marcia Tiburi sublinha a importância de uma utopia do sem rosto, daquilo no que o importante é o caminho, aquilo que é feito hoje. Refere que Saramago não tinha piedade de nós, que nos queria confrontar com a verdade, e que resulta irónico que no Brasil, nos seus círculos de amizade, se dizia que era Deus. A filósofa brasileira traça comparações entre Saramago e Emma Goldmann, Rosa Luxemburg, Bakhtin, entre outras figuras e detecta nele um anarquismo inerente. Define a sua crítica às estruturas e aos sistemas com o que denomina uma dialéctica da urgência.

Muito obrigado, Marcia Tiburi, por esta magnífica lição!

Apontamentos, resumo e reflexão: Burghard Baltrusch

 

Depois da sua palestra, Marcia Tiburi foi entrevistada pela TVG, para o programa Zigzag Diario (https://i.gal/qrWzW):

 

Publicado, 13/11/2022




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