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A Jangada da Europa Deriva Apontamentos sobre a Actualidade dA Jangada de Pedra de Jos Saramago

Fruto imediato do ressentimento colectivo portugus pelos desdns histricos de Europa (mais exacto seria dizer fruto de um meu ressentimento pessoal...), o romance que ento escrevi - A Jangada de Pedra - separou do continente europeu toda a Pennsula Ibrica para a transformar numa grande ilha flutuante, movendo-se sem remos, nem velas, nem hlices em direco ao Sul do mundo, massa de pedra e terra, coberta de cidades, aldeias, rios, bosques, fbricas, matos bravios, campos cultivados, com a sua gente e os seus animais, a caminho de uma utopia nova: o encontro cultural dos povos peninsulares com os povos do outro lado do Atlntico, desafiando assim, a tanto a minha estratgia se atreveu, o domnio sufocante que os Estados Unidos da Amrica do Norte vm exercendo naquelas paragens... Uma viso duas vezes utpica entenderia esta fico poltica como uma metfora muito mais generosa e humana: que a Europa, toda ela, dever deslocar-se para o Sul, a fim de, em desconto dos seus abusos colonialistas antigos e modernos, ajudar a equilibrar o mundo. Isto , Europa finalmente como tica. As personagens da Jangada de Pedra - duas mulheres, trs homens e um co - viajam incansavelmente atravs da pennsula enquanto ela vai sulcando o oceano. O mundo est a mudar e eles sabem que devem procurar em si mesmos as pessoas novas em que iro tornar-se (sem esquecer o co, que no um co como os outros...). Isso lhes basta. 
(Jos Saramago, Discursos de Estocolmo)

Em 2016, os 30 anos da edio dA Jangada de Pedra de Jos Saramago coincidiram com o trigsimo aniversrio da adeso de Portugal e Espanha CEE, a futura Unio Europeia. A relevncia da perspectiva saramaguiana sobre a relao das culturas ibricas com o resto da Europa, sobre o processo de construo da UE continua a ser evidente.

No seu momento, o romance e as opinies do autor representavam uma viso radicalmente diferente daquela que vigorava na opinio pblica de ento. Desde a direita at ao centro-esquerda, depreciava-se qualquer debate sobre os perigos de antecipar uma unio econmica a uma convergncia poltico-cultural. Uma ampla maioria nos principais pases europeus acreditava que o perodo de paz aps a II Guerra Mundial s se devia ao processo de integrao econmica europeia.

Mas o romance sugeriu, de uma forma muito plstica, como o conflito ps-colonial de sistemas tambm se podia transformar em conflito cultural na prpria metrpole Europa. Depois de 500 anos de presena em trs continentes e aps a perda das ltimas colnias, a entrada de Portugal e Espanha na CEE tinha sido menos um regresso do que uma chegada. At morte de Franco ou ao 25 de Abril, respectivamente, a Europa tinha sido para Espanha e Portugal sobretudo um destino de emigrao e de exlio.

A adeso econmica, porm, aconteceu num momento no qual esta Europa j se encontrava desprovida de um imaginrio comum. Nos casos espanhol e portugus, talvez tenha vigorado naquele momento uma utopia de modernizao das suas sociedades. Mas o que realmente produziu uma poltica de factos consumados era a economia comunitria com os seus caudais de fundos de desenvolvimento.

Porm, no havia naquele momento um projecto poltico-cultural de uma Europa com valores comuns que pudesse ter servido de alicerce para uma integrao. Precisamente por isso, A Jangada de Pedra insistiu na necessidade de aco de um sujeito que no pode ser desvinculado do seu contexto histrico-social e poltico. Como em toda a obra saramaguiana, tambm este romance participa de uma certa utopia do destino individual e do futuro melhor. Mas esta s se justifica pela aco histrica do sujeito e por este adquirir uma memria crtica do passado.

Assim, a vara de negrilho e o risco de Joana Carda, que maravilhosamente desencadeiam a rotura da Pennsula Ibrica nos Pirenus, deslegitimam todas as vinculaes impostas, sociais ou polticas. sugerida a instituio de uma nova realidade, de uma necessria heterogeneidade cultural e de uma reescrita ps-colonial da Histria. A leitura crtica da Histria que prope o romance lembra-nos que a Europa precisa de uma narrativa actualizada e da sua conseguinte posta em prtica. Entre outros aspectos, sugere que indispensvel assumirmos a culpabilidade europeia em relao s culturas e aos espaos colonizados.

Saramago concretizou esta reivindicao em 1998, no seu discurso na cerimnia de entrega do prmio Nobel. A reclamou uma nova utopia para a Europa, uma reorientao para o Sul, a fim de, em desconto dos seus abusos colonialistas antigos e modernos, ajudar a equilibrar o mundo e que esta Europa se assuma, de uma vez por todas finalmente como tica.[1] No era a nica ocasio em que se desvinculara da corrente europeizante do pensamento nacional em Portugal.[2]

Mas era no discurso de Estocolmo onde chegou a caracterizar A Jangada de Pedra como o fruto do ressentimento colectivo portugus e at, pessoal, pelos desdns histricos de Europa.[3] E em 1986, numa entrevista para a revista francesa Libration, tinha deixado claro que no cerne da questo estava a necessidade de acrescentarmos memria colectiva europeia uma argumentao tica:

Esse romance [] o efeito, talvez ltimo, de um ressentimento histrico. Provavelmente, s um portugus poderia ter escrito tal livro. Mas o seu autor, este autor, declara que estaria pronto a fazer regressar do mar a errante jangada, depois de alguma coisa ter aprendido de vitalmente necessrio durante a sua navegao, se a Europa, reconhecendo-se, de facto, incompleta sem a Pennsula Ibrica, viesse a fazer pblica confisso dos erros cometidos, das injustias e dos desprezos com que durante tantos anos tratou dois povos a quem deve muito mais do que aquilo que tem querido reconhecer.[4]

Mas a utopia de uma Europa finalmente como tica, livre de complexos de superioridade, no implica o desaparecimento dos factos diferenciais que distinguem as culturas ibricas entre si, mas tambm, pelo menos na sua grande maioria, das outras culturas europeias. Continua a haver lugar para o sonho de um destino atlntico das culturas peninsulares.

Naturalmente, isto inclui tambm a defesa de um pluralismo e de uma identidade cultural fluda, acorde com um mundo globalizado, sem nunca abdicar da premissa de uma tica concreta e palpvel:

De um ponto de vista tico abstracto, a Europa no tem mais culpas no cartrio da histria que outra qualquer parte do mundo onde, hoje e ontem, por todos os meios, se tenham disputado o poder e a hegemonia. Mas a tica, exercendo-se, como no-lo est dizendo o senso comum, sobre o concreto social, porventura a menos abstracta de todas as coisas.[5]

Esta filosofia do sentido comum a base do privilegiamento das permutas culturais com a Amrica Latina e a frica,[6] com o qual o eurocentrismo deve ser contrariado, uma ideia que Saramago circunscreveu com o conceito da trans-ibericidade.[7] Quer dizer, o desafio de a Europa enfrentar a sua imagem no espelho das culturas ps-coloniais s quais deu origem.

Hoje, quando se deplora o euro-cepticismo seria conveniente lembrar que Saramago j nos avisou em 1986 que existe alm dessa espcie de deformao congnita denominada eurocentrismo, aquele outro comportamento aberrante que consiste em ser a Europa, por assim dizer, eurocntrica em relao a si mesma.[8] Saramago sempre insistiu na correlao entre uma tica comum e a necessria aceitao dos factos diferenciais das diferentes culturas europeias:

[] no haver no futuro prximo uma nova Europa se esta no instituir frontalmente como entidade moral, e tambm no a haver se no for abolido, mais do que os egosmos nacionais, que quantas vezes no passam de meros reflexos defensivos, o preconceito da prevalncia ou da subordinao das culturas.[9]

Nos trinta anos que Portugal e Espanha esto agora na CEE e na UE, nivelaram-se muitas diferenas econmicas e administrativas, mas tambm culturais. A visibilidade e o conhecimento das culturas ibricas nas grandes potncias europeias, e na UE em geral, tm certamente aumentado. Mas tambm presenciamos uma crescente desconfiana dos pases do Centro-Norte em relao aos pases do Sul, frequentemente acusados de serem demasiado corruptos, dispendiosos e preguiosos. Uma recente tentativa do Ministro de Finanas alemo de interferir na poltica interna portuguesa tem sido disso s um exemplo paradigmtico, entre muitos outros. Em 2016, numa cimeira em Budapeste, Wolfgang Schuble apresentou o Portugal da Troika como um exemplo do que devem ser as polticas econmicas a seguir pelos pases da zona euro, ao dizer que Portugal estava a ser muito bem sucedido at entrar um novo governo, depois das eleies, que a sua falha tinha sido declarar que no iria respeitar os compromissos assumidos pelo anterior Governo e se seguirem esse caminho, vo assumir um grande risco, afirmou.[10] J antes, o mais poderoso dos ministros de finanas da UE tinha advertido do perigo de Portugal ter de pedir um novo resgate, se no acatasse as regras ditadas pela Comisso Europeia.

Estas imposies de cortes financeiros chocam com o facto de terem sido os 10% mais pobres que perderam 24% do rendimento, entre 2009 e 2013 em Portugal, enquanto o rendimento dos 10% mais ricos s desceu 8%. Tambm segundo o Eurostat, mais de um quarto da populao portuguesa (25,3%, na Espanha so 28,2%) est em risco de pobreza e excluso social, um risco que est a aumentar em todos os pases da Unio Europeia, ininterruptamente desde 2008, sobretudo nos pases sujeitos a troikas ou a medidas radicais de austeridade, eufemisticamente ditas ajustamentos estruturais.

Em 1986, Saramago j intuiu que uma integrao econmica europeia sem enquadramento cultural, poltico e tico iria causar muitos desequilbrios e que o seu pecado ou vcio maior, [] a existncia de duas Europas, a central e a perifrica, mais o consequente lastro histrico de injustias, discriminaes e ressentimentos.[11] O facto de Portugal, especialmente durante os anos da recente crise econmica e financeira mundial, ter sido relegado para o papel de fornecedor de mo-de-obra barata ou de destino turstico de baixo custo e massificado, com Lisboa e Porto em clara deriva para a gentrificao e a descaracterizao, ilustra esses desequilbrios. A desconfiana e altivez com que os governos dos pases do Centro-Norte costumam dirigir-se ao Sul da Europa, no um fenmeno recente e j estava presente quando Saramago escreveu A Jangada de Pedra:

desta maneira idealizada que os europeus costumam ver-se no espelho de si mesmos, e essa a servil resposta que a si mesmos invariavelmente vm dand Sou eu o que de mais belo, de mais inteligente e de mais culto a Terra produziu at hoje..[12]

Um dos principais reflexos actuais desta atitude doutoral desprovida de uma tica do concreto social talvez seja a imposio de uma austeridade e de um dogmatismo financeiros que produziram novas vagas de emigrao, agravado ainda pela falta de uma poltica de compromisso inequvoco em relao crise humanitria dos refugiados. Estas e muitas outras dissonncias no seio da EU compem um desolador panorama de desintegrao e falta de solidariedade, tal como o descreveu Saramago j em 1986:

Para os estados europeus ricos e, segundo a opinio narcsica em que se comprazem, culturalmente superiores, o resto da Europa algo vago e difuso, um pouco extico, um pouco pitoresco, merecedor, quando muito, da ateno da antropologia e da arqueologia.[13]

No s Portugal que se debate hoje com transformaes estereotipadas e superficialmente estetizadas da sua identidade. H uma presso para que os economicamente mais fracos correspondam, entre outras imposies de um mercado comunitrio e simultaneamente globalizado, ao ideal de destino de negcio aliciante ou de turismo low cost. Enquanto a Europa se encontrar numa deriva desintegradora, austerocrtica, paternalista, heteropatriarcal e sem consenso sobre valores comuns, um livro como A Jangada de Pedra continuar a ser uma mensagem poltica relevante para os indispensveis debates sobre o futuro da UE.

Como instituio, cuja credibilidade depende de como consegue responder s expectativas da cidadania, a UE vive, hoje em dia, submersa numa grave crise de valores. Para que possa formular alternativas reais ao euro-cepticismo crescente, no s precisa de uma reflexo colectiva e inter-cultural em torno dos problemas actuais como bem-estar, coeso, equidade ou segurana. Mas tambm sobre a promessa incumprida de uma Europa das Regies, sobre a necessria redefinio de uma identidade cultural europeia a partir de valores como solidariedade e Direitos Humanos, entre muitos outros.

Apesar de ter sido um declarado crtico do conceito de utopia, Saramago sempre se esforou por deixar uma porta aberta para uma reinveno em positivo da narrativa Europa. Porm, este renovado relato tico teria de partir da cidadania e do sujeito, da ideia de um demos (δήμος) europeu, ou seja, de um conceito de povo que no se fundamenta exclusivamente no tnico. S a expresso deliberativa, cooperativa e colectiva da vontade dos sujeitos pode legitimar uma aco poltica e social oposta tecnocracia descaracterizadora. Mas antes de l chegar, esta cidadania precisa de assumir que

as culturas, tempo de comear a entend-lo Europa, e entendida tente ficar de uma vez para sempre, no so melhores nem piores umas que as outras, no so mais ricas nem mais pobres. Pelo destino, valem-se e equivalem-se, e pela diferena, assumida e aprofundada, que se justificam.[14]









Como citar este artigo:

Baltrusch, Burghard (2016). "A Jangada da Europa Deriva   Apontamentos sobre a Actualidade dA Jangada de Pedra de Jos Saramago", in Publicaes no site da I Ctedra Internacional Jos Saramago, (acesso ../../....).

Este texto uma vers
o abreviada e ligeiramente modificada do artigo "NOS 30 ANOS DA JANGADA DE PEDRA: JOS SARAMAGO E A ATUALIDADE DO DISCURSO DA TRANS-IBERICIDADE, publicado em Fnix - Revista de Histria e Estudos Culturais (n. 2, 2016).


[1]Saramago (1999). Discursos de Estocolmo. Lisboa: Caminho.
[2]Saramago (1988). O (meu) Iberismo, Jornal de Letras, Artes e Ideias 330, 31.10., p. 32.
[3]Saramago (1999), Discursos de Estocolmo. Lisboa: Caminho.
[4]Saramago [1986] (2016). Meditao sobre uma Jangada, Blimunda 55, p. 105, reed. em port. de uma entrevista dada Libration em 1986.
[5]Ibid., p. 100.
[6]Saramago (1986). A Pennsula Ibrica nunca esteve ligada Europa [entrevista a Ins Pedrosa], Jornal de Letras, Artes e Ideias, 10.11., p. 24.
[7]Saramago (1989). Acerca do (meu) Iberismo, Encontros: Revista Hispano Portuguesa de Investigadores en Ciencias Humanas y Sociales 1, p. 31.
[8]Saramago [1986] (2016). Meditao sobre uma Jangada, Blimunda 55, p. 101.
[9]Ibid., p. 102-103.
[10]Pblico do 26.10.2016, <https://www.publico.pt/2016/10/26/economia/noticia/schauble-diz-que-portugal-estava-a-ser-bem-sucedido-ate-entrar-um-novo-governo-1748949>, acess 20/01/2017.
[11]Saramago [1986] (2016). Meditao sobre uma Jangada, Blimunda 55, p. 101.
[12]Ibid., p. 99.
[13]Ibid., p. 102.
[14]Ibid., p. 103. 
Publicado, 04/03/2017




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