Ensaio sobre os Deveres
A obra de José Saramago não se esgota na página: pede palco, pede corpo, pede voz colectiva. É dessa convicção, afirmada pela I Cátedra Internacional José Saramago da Universidade de Vigo (CJS-UVigo), que nasce o ciclo Ensaio sobre os Deveres.
O ponto de partida é o apelo lançado por Saramago em Estocolmo, em 1998, ao receber o Prémio Nobel: que à Declaração Universal dos Direitos Humanos se somasse uma declaração dos nossos deveres e obrigações. Em 2018, a Fundação José Saramago deu-lhe forma e submeteu à ONU a Carta Universal dos Deveres e Obrigações dos Seres Humanos.
Em torno da exposição desta Carta, com curadoria original da Fundação José Saramago, apresentada em Vigo e depois itinerante até 2028, a CJS-UVigo promove uma sucessão de criações performativas nos domínios da poesia e das artes audiovisuais, entre outros. Não serão ilustrações de um texto jurídico-ético, mas um espaço onde o poético-político pensa o que significa dever alguma coisa a outrem: ao próximo, à comunidade, à memória, ao futuro.
Curadoria do ciclo: Hugo Milhanas Machado (CJS-UVigo) e Rodrigo Herrera Alfaya (CJS-UVigo)
Programa de Performances — Dezembro de 2026
Cartografias do Exílio, Saramago Vol. I | Projecto colaborativo, ensaio visual-sonoro de Joana Videira (NOVA FCSH), Gabriela Marramaque (FBAUL) e Filipa Cardoso (artista independente) — 8 de Dezembro, 19h00, Camões – Centro Cultural Português Vigo
Ensaio visual sonoro e performance intermedial que investiga, a partir de dois textos de Saramago, as possibilidades do gesto desautorizado, instável e indisciplinar(ado).
Dos 23 Deveres e Obrigações dos Seres Humanos e do primeiro volume dos Cadernos de Lanzarote faz-se emergir um 24.º dever, que Saramago nunca escreveu, mas praticou: o dever de existir criativamente no mundo.
Realizada no dispositivo do vídeo, a performance recusa a autoridade do discurso e da autoria para propor a vida e a prática artística como gesto encarnado, colectivo e político. Entre leitura performativa, sonoplastia e vídeo, desmonta-se a conferência enquanto produção de sentido estável, e o erro, o ruído, o cliché e a falha tornam-se estratégias críticas capazes de fissurar os regimes de legitimidade da autoridade académica e autoral.
todos os nós | Performance de Branca Cabaleiro Trigo (Edicións Malafera) e Alesandra Vieito (Estudo Cotobelo Tecedoras) — 9 de Dezembro, 19h00, Camões – Centro Cultural Português Vigo
Performance em que dialogam a poesia recitada de Branca Trigo e o shibari de Alesandra (Estudo Cotobelo Tecedoras), para explorar a relação entre direitos, deveres e responsabilidades a partir do universo literário e ético de José Saramago.
O título parte de Todos os nomes, romance em que a procura de outres transforma, passo a passo, a relação de quem procura com a instituição, com a verdade e com os limites estabelecidos. Daí se investiga a identidade como algo que se constrói na relação com outras pessoas: somos nomes, mas também vínculos, memórias e responsabilidades partilhadas.
As cordas são o centro da acção. Podem sujeitar, limitar, proteger ou sustentar; representam tanto as estruturas de poder que condicionam as pessoas como os laços que nos unem a outres. Cada nó é, ao mesmo tempo, restrição e compromisso: atar e ser atade converte-se em acto de confiança e em negociação constante entre autonomia e dependência, entre poder e cuidado. O corpo torna-se território de memória: o que se nomeia, o que se oculta, o que permanece. E a transformação contínua dos nós, com o seu efeito na posição de quem recita, mostra que nenhuma relação é neutra e que toda a decisão que envolve outres implica responsabilidade.
Massa humana à moda universal: metade de indiferença e metade de maldade / Perfopoesia de Silvia Penas e Jesus Andrés Tejada (Cintaadhesiva) — 10 de Dezembro, 19h00, Camões – Centro Cultural Português Vigo
Perfopoesia que parte da afirmação categórica de José Saramago: «Somos feitos dessa massa, metade de indiferença e metade de maldade». Desta premissa sobre a condição humana nasce um dispositivo cénico estruturado como um menu com um único prato do dia: cozinhar, com o próprio corpo, a Carta Universal dos Deveres e Obrigações dos Seres Humanos.
Entre voz poética, paisagens sonoras de alta tensão e acções corporais, a performance confronta o conforto quotidiano com a omissão política. Um a um, os artigos fundamentais da Carta (o combate à discriminação, a igualdade de género, a veracidade da informação, a justiça fiscal, o direito universal à saúde, o acolhimento dos migrantes e a protecção da biodiversidade) deixam de ser preceitos jurídicos frios para se tornarem impulsos viscerais e compromissos colectivos.
O palco faz-se cozinha ética e social, para lembrar que a proclamação dos direitos não basta sem o exercício físico, poético e político dos nossos deveres para com as outras pessoas.
O ciclo Ensaio sobre os Deveres integra as II Conferências Itinerantes «Os 30 Anos do Nobel», coordenadas pelas Cátedras Saramago da UAB, da Roma Tre, da Universidade de Vigo e de Sófia e pela Rede Jangada, em várias universidades europeias e latino-americanas, por ocasião dos trinta anos do Prémio Nobel de Literatura de José Saramago, em 2028.
Conferências e ciclo nascem das palavras proferidas por Saramago no banquete Nobel, a 10 de Dezembro de 1998:
«Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra e a iniciativa.»
Apesar das sombras que ainda pesam sobre a humanidade neste alvor do século XXI, cada pessoa pode, e deve, ser agente de um futuro mais justo, em vez de se resignar às circunstâncias que a limitam ou de com elas colaborar. Faz-nos falta a voz e a presença de Saramago, que nos convocava a repensar e a transformar as nossas acções, e para promover diálogos que nos ajudem a compreender quem somos e o mundo que habitamos. Porque, como assegurava Saramago em A Viagem do Elefante (2008):
«Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam.»



